O mito de que o Brasil é líder mundial no uso de defensivos agrícolas ainda permeia a sociedade. De acordo com uma pesquisa da CropLife Brasil, realizada pela Nexus em 2025, a falsa informação persiste até mesmo no setor agrícola: 32% dos formadores de opinião e tomadores de decisão que atuam na área acreditam no dado incorreto.
O uso dos defensivos está diretamente ligado às condições climáticas, ao sistema produtivo, à pressão de pragas e o tipo de cultivo de cada país. Por isso, comparações entre países precisam considerar as diferenças entre modelos agrícolas tropicais e temperados.
No Brasil, utilizando o dado de vendas do Ibama como uma estimativa indireta de consumo, o último registro global comparável aponta que o país ocupou a 45ª posição no ranking mundial em 2022, com um total de 7,98 kg/hectare. Esse ranking completo está disponível no portal de dados CropData.
Volume absoluto e uso por hectare
O Brasil produz cerca de 40% da soja mundial, é o maior exportador de café e açúcar, e boa parte de sua área agrícola cultiva até três safras anuais. A quantidade total de qualquer insumo aplicado é, portanto, elevada devido ao volume da produção.
No mercado interno, a base estatística do Ibama aponta que o Brasil comercializou 826 mil toneladas de produtos formulados em 2024. Considerando a imensa extensão agrícola do país (englobando grãos, café, cana-de-açúcar, hortifrutigranjeiros e áreas com eucalipto e pinus), as vendas desses defensivos equivaleram a 7,73 kg/ha. Países como Holanda, Bélgica, Japão e Itália apresentam índices superiores nesse tipo de comparação, que utiliza metodologia de análises internacionais da OCDE e FAO.
Por que os herbicidas pesam tanto na conta
Os herbicidas mantêm a liderança como a principal classe de uso comercializada, representando 4,05 kg/ha do total aplicado no campo. Na sequência, aparecem os fungicidas (1,39 kg/ha) e os inseticidas (0,94 kg/ha).
O uso intensivo de herbicidas é uma necessidade direta de nossa agricultura para controlar plantas daninhas que competem por água, luz e nutrientes com os cultivos. Além disso, o controle químico desempenha um papel essencial ao viabilizar o sistema de plantio direto. Ao eliminar as ervas invasoras quimicamente, o produtor evita a necessidade de aração e gradagem mecânica do solo, prevenindo assim a erosão e a compactação da terra. Países que ainda usam arado em grande parte da área substituem o uso desse tipo de produto, mas contribuem para o aumento da erosão, emissão de carbono e consumo de combustível.
O que mostram as doses de defensivos usadas
A adaptação da natureza exige mudanças no campo: o produtor rural precisou intensificar o uso de herbicidas, elevando o número de doses, misturas e aplicações para lidar com a resistência das plantas daninhas. Esse comportamento tem impulsionado fortemente o uso de pré-emergentes (aplicados no solo antes da germinação), especialmente com alto impacto no sistema soja-milho-algodão. Em um cenário de margens financeiras mais curtas, há também uma maior busca por produtos genéricos pós-patente, que chegam a ser 25% mais baratos.
Os dados mostram que defensivos agrícolas têm como função proteger o potencial produtivo das culturas contra perdas causadas por pragas, doenças e plantas daninhas. A produtividade agrícola depende de uma combinação de fatores como genética, solo, clima, disponibilidade de água e manejo.
Além disso, países com clima temperado têm o “inverno sanitário”, meses em que pragas hibernam ou morrem devido ao frio intenso. Nos trópicos, a pressão de pragas é constante, por isso comparar uso de defensivos entre países com realidades diferentes ignora a variável mais importante do jogo.
Os desafios da Agricultura Tropical
O avanço da agricultura tropical brasileira depende da evolução contínua das práticas de manejo e do uso cada vez mais inteligente das tecnologias no campo. Diante do surgimento de novas complexidades — como percevejos ganhando relevância no sistema soja-algodão ou o aumento da incidência de nematoides na cana-de-açúcar —, a ampliação de um manejo integrado que une insumos biológicos e químicos segue como prioridade para o setor.
Mais do que apenas observar o custo, essas dificuldades reforçam a importância de decisões técnicas focadas na qualidade, eficácia e no suporte de produtos. Agilidade na aprovação de novas ferramentas é considerada estratégica para que o produtor não fique defasado na lavoura. Temas como fiscalização, aplicação precisa e destinação adequada de embalagens também permanecem centrais para um modelo produtivo sustentável. Mais do que simplificar o debate, compreender o agronegócio nacional exige analisar de frente o clima, a escala e os dados reais de consumo.